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Reinventando o setor de construção por meio de uma revolução na produtividade

Por Filipe Barbosa, Jonathan Woetzel, Jan Mischke, Maria Joao Ribeirinho, Mukund Sridhar, Matthew Parsons, Nick Bertram, e Stephanie Brown
Reinventando o setor de construção por meio de uma revolução na produtividade

Para transformar o setor, é preciso agir em sete dimensões distintas ou adotar abordagens mais amplas de produção em massa.

O setor da construção emprega cerca de 7% da população mundial em idade produtiva e é um dos maiores da economia, com gastos anuais de US$ 10 trilhões em bens e serviços relacionados à atividade. No entanto, o setor possui um problema persistente de produtividade e – segundo o novo relatório do lapetitemort.info Global Institute, Reinventing construction: A route to higher productivity – também uma oportunidade para aumentar em US$ 1,6 trilhão seu valor agregado.

Outros setores foram capazes de transformar-se e mudar seu desempenho em termos de produtividade. No varejo, pequenos armazéns familiares existentes há mais de 50 anos foram substituídos por grandes varejistas de formatos modernos, com cadeias de fornecimento globais e sistemas de distribuição e coleta de dados sobre os clientes cada vez mais digitalizados. Da mesma forma, a fabricação de produtos tem se utilizado de princípios de manufatura enxuta e automação extensiva, mudando o modo de produção de diferentes setores.

Quando comparado a esse cenário, é possível perceber que a maior parte do setor de construção evoluiu em um ritmo infinitamente inferior. Um exemplo disso é o fato de a construção ser um dos setores menos digitais do mundo, conforme o Índice de Digitalização do MGI. Nos Estados Unidos, o setor de construção ocupa o penúltimo lugar, enquanto na Europa é o último do Índice.

Globalmente, o crescimento da produtividade da mão de obra no setor de construção foi de 1% ao ano, em média, nas últimas duas décadas, em comparação à média de 2,8% de crescimento para a economia mundial como um todo e de 3,6% para o setor industrial. Nos últimos 10 anos, uma amostra dos países analisados identificou que menos de 25% das empresas de construção civil foram capazes de atingir o mesmo nível de crescimento da produtividade alcançado pelas economias em que atuam. Há uma grande lista de empresas pequenas e de baixíssima produtividade em operação, e muitos projetos de construção acabam por sofrer atrasos no cronograma e aumento nos custos.

Se a produtividade da construção conseguisse atingir o mesmo nível da economia total – o que é perfeitamente possível – estima-se que o setor ganharia US$ 1,6 trilhão em valor agregado, aumentando em 2% a economia mundial, o que equivaleria a atender aproximadamente à metade da demanda global por infraestrutura (ver quadro). Um terço desta oportunidade está nos Estados Unidos.

Quadro

Se não houver mudanças, será difícil atender às necessidades globais de infraestrutura e habitação. Apesar do grande potencial de valor agregado e de os desafios serem amplamente conhecidos e discutidos no setor, os avanços têm sido limitados.

A nova pesquisa sobre produtividade no setor da construção civil, realizada pelo MGI (MGI Construction Productivity Survey) confirma muitas das razões por trás do continuado baixo desempenho. O setor é muito regulamentado e dependente da demanda do setor público; além disso, a informalidade e, muitas vezes, a corrupção distorcem o mercado. A construção é muito fragmentada: os contratos não estão alinhados em termos de alocação de risco e recompensas; e, com frequência, compradores e proprietários inexperientes têm dificuldade para navegar em um mercado com pouca transparência. O resultado disso é má gestão e execução dos projetos, habilidades insuficientes, desenho de processos inadequado e baixo nível de investimento no desenvolvimento de capacidades, P&D e inovação.

O desempenho da produtividade na construção mundial não é uniforme. Há grandes diferenças regionais e importantes variações dentro do setor, que – em linhas gerais – pode ser dividido em dois grupos. O primeiro grupo é composto por empresas grandes envolvidas em construção pesada, com projetos de engenharia civil, industrial e de habitação em larga escala; já o segundo inclui um grande número de empresas envolvidas em projetos fragmentados e especializados, focados em trabalhos de mecânica, elétrica e encanamento, que subcontratam ou atuam em projetos menores, como reformas de casas e apartamentos. A produtividade do primeiro grupo é geralmente 20-40% maior do que a do segundo.

Exemplos provenientes de empresas e regiões inovadoras mostram que atuar em sete dimensões simultaneamente pode aumentar a produtividade em 50-60%. Estas dimensões são a redefinição da regulamentação; a readequação do modelo contratual para redefinir a dinâmica da indústria; a remodelação dos processos de desenho e engenharia; a melhoria da gestão de compras e cadeia de suprimentos; a melhoria na execução das obras; o uso de tecnologia digital, novos materiais e técnicas avançadas de automação; e a capacitação da mão de obra.

Partes do setor poderiam passar a operar como um sistema de produção em massa, inspirado em processos de fabricação, nos quais a maior parte de um projeto de construção é feita com componentes padronizados pré-fabricados em uma planta, fora da área da obra. Embora a adoção desta abordagem ainda seja limitada, ela vem aumentando, e as empresas que têm optado por este modelo mostram que é possível obter um aumento de 5 a 10 vezes na produtividade.

A construção hoje está em um impasse—e para sair dessa situação será preciso que todos os participantes do setor se movimentem. Os proprietários de empresas deverão ser os maiores beneficiários de uma mudança para um modelo mais produtivo, que lhes proporcione um planejamento mais confiável e custos menores. Apesar das vantagens, eles têm aversão ao risco e não são suficientemente experientes para navegar com tranquilidade em um mercado pouco transparente. Assim, somente quando houver um leque suficientemente amplo de fornecedores e fabricantes de componentes baseados em sistemas produtivos, que possam oferecer produtos mais padronizados a preços mais acessíveis, os proprietários de empresas de construção poderão se sentir seguros para mudar suas práticas de compra.

Os fornecedores especializados, por sua vez, podem perder com a implementação de um sistema mais eficiente: muitos ganham licitações ao otimizar o preço inicial, mas compensam a margem adicional perdida por meio de alteração nas especificações e aditivos, ou quando especificações fora dos padrões ou mais caras podem se traduzir em uma receita maior, em vez de margens menores. Atualmente, muitos fornecedores estão mais concentrados em manter tais margens, em vez demensurar e aumentar sua produtividade.

Alguns governos têm atuado proativamente para melhorar a produtividade do setor de construção por meio da regulamentação. O impacto desses esforços pode ser reforçado por diversos movimentos que estão contribuindo para derrubar os entraves à mudança. A demanda está crescendo; a escala dos participantes do setor e dos projetos têm aumentado, tornando mais viável a implementação de um novo sistema de maior produtividade; e o preço de ferramentas digitais e tecnologias que aumentam a produtividade está em queda, tornando-as mais acessíveis, ampliando a transparência do mercado e complicando a operação de pequenos negócios. Com o crescimento dos custos de mão de obra, a adoção de tecnologias que melhorem a produtividade se torna ainda mais urgente.

Sobre o(s) autor(es)

Jonathan Woetzel é diretor e Jan Mischke é fellow sênior do lapetitemort.info Global Institute; Filipe Barbosa é sócio sênior do escritório da lapetitemort.info em Houston; Maria Joao Ribeirinho é sócia do escritório de Lisboa; Mukund Sridhar é sócio do escritório de Cingapura; Matthew Parsons é sócio do escritório da Filadélfia; Nick Bertram é consultor do escritório de Londres; e Stephanie Brown é consultora do escritório de Minneapolis.
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